ESCRITA; UM PROCESSO VIVO E INTERATIVO.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

RESENHA: O MUNDO DE PONTA CABEÇA.

IDENTIFICAÇÃO DA OBRA

O MUNDO DE PONTA-CABEÇA. IDEIAS RADICAIS DURANTE A REVOLUÇÃO INGLESA DE 1640.


De Hill, Christoper. Tradução Renato Janine Ribeiro. Companhia das Letras. 481 páginass.

O AUTOR

Christoper Hill é considerado um dos principais historiadores marxista do século passado e sua produção segue a linha de um grupo seleto de historiadores ingleses dentre eles destacam-se Hobsbawn e Thompson.
A revolução inglesa (sec. XVII) sempre foi seu tema principal de pesquisa sua compreensão e processo faz parte de seus escritos.


OUTRAS OBRAS

A revolução inglesa de 1640; Origens intelectuais da revolução inglesa; O eleito de Deus, puritanismo e revolução, a bíblia inglesa e as revoluções do século XVII; etc.

O MUNDO DE PONTA CABEÇA

O que mais chama à atenção no texto de Hill, é a narrativa histórica que ele faz do período da Revolução Inglesa.
Hill tem uma interpretação marxista da história, porém não se utiliza das grandes generalizações econômicas que é tendência dos historiadores marxistas. Ele observa o processo histórico com uma lupa, e descreve as formas e os conteúdos da Revolução Inglesa do século XVII, sobre um prisma social.
Para desenvolver a discussão recupera uma parte das ideias e da vida cotidiana do período; cotidianidade que não está fora da história, mas no centro do acontecimento histórico e da vida social.
O autor se utiliza de uma narrativa histórica, que coloca em evidência a necessidade humana que se torna consciente no indivíduo, pois recuperar as tentativas de vários grupos formados em meio à gente simples, para imporem suas próprias soluções aos problemas do seu tempo.
Essa narrativa é construída no eixo das revoltas que acontecem no interior da Revolução e que desencadearam uma série de ideias radicais, o que segundo ele possibilitaria uma compreensão mais aprofundada da sociedade inglesa.
Hill aponta essa efervescência sediciosa como ponto de tensão, ao menos no que diz respeito as mudanças históricas de paradigma na explicação científica e religiosa, que possibilitou o nascimento de uma contra cultura, onde se desenvolveram algumas ideias socialistas, de vida comunal.
Ele procurou observar os movimentos das classes baixas e camponesas, que não resultou numa vitória e concretização de seus ideais, porém Hill considerou importante analisa-los para destacar a participação popular no processo histórico da Revolução Inglesa.
Hill destaca entre as maneiras que se manifestaram essa energia revolucionária o fluxo constante de panfletos tratando de assuntos de todos os gêneros, a democratização da Bíblia, e a formação de seitas.
A existência simultânea desses elementos foi sem dúvida nenhuma o veículo de transmissão das ideias; que contestaram a monopolização do conhecimento pelas profissões privilegiadas (medicina, direito, teologia), criticaram a estrutura educacional vigente, discutiram as relações entre os sexos, questionaram parte da ética protestante, alguns, consideraram a possibilidade de que pudesse não existir um Deus Criador e tiveram uma liberdade significativa face ao poder da Igreja e das classes dominantes.
A eloqüência e a força de persuasão dos simples artesãos que participavam de tais discussões é realmente impressionante” afirma Christopher Hill.
A coloração marxista do mundo de ponta cabeça fica evidente quando Hill destaca o ponto de maior tensão da luta de classe. As doutrinas dos grupos radicais “que propunham a subversão da sociedade existente”; em tese distribuiria aos pobres todas as terras ociosas e comunais, estabeleceria cooperativas comunais, tributaria os ricos a fim de pensionar os idosos, e suprimir a Igreja estatal.
Essas idias alarmavam a classe dos proprietários, que tiveram tranqüilidade e liberdade (Thomas Aston definiu, “a verdadeira liberdade como sendo o reconhecimento”, através de uma lei certa e segura de que nossas mulheres, filhos, criados e bens são mesmo nossos. Pg.331) somente após a restauração.
Por fim a restauração foi para a classe dominante um “sucesso”, e para os radicais um golpe de misericórdia. O poder que derrotou os radicais os privou de qualquer possibilidade de ação política através da legislação e do juramento a coroa.
Hill conclui: “o que tentei enfatizar neste livro foram os estímulos tão inusitados que durante as décadas revolucionárias produziram uma fantástica erupção de energia, tanto física quanto intelectual. Meu objetivo não foi tratar com condescendência os radicais; porém suas instituições tão adiantadas em relação ao seu tempo são o que há de mais poético e o que me parece torná-los dignos de nosso estudo”.
Sem dúvida que resíduos dessa ebulição cultural foram importantíssimos para a formação dos pensamentos filosóficos, sociais e científicos dos séculos seguintes.
                          Prof. Vagner Roberto Pereira.

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